Entre controvérsia e esperança

Uso de fosfoetanolamina sintética passa no Congresso, depende de sanção de Dilma e sofre rejeição da classe médica e científica

professora
Maria Rosângela Dias enfrenta desde novembro um câncer agressivo no ovário e diz que a fosfo ajudou no tratamento

Para alguns, um placebo. Para outros, uma esperança. O uso da fosfoetanolamina sintética, conhecida como a pílula do câncer, foi aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal neste mês mesmo sem o registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o projeto de lei segue para a sanção da presidente Dilma Rousseff. O aval dos senadores na semana passada acirrou ainda mais o embate entre os órgãos de saúde, que contestam a suposta eficácia das cápsulas no combate a células cancerígenas, e os pacientes oncológicos que relatam evolução positiva no tratamento com a “fosfo”.

São pacientes como a professora Maria Rosângela Dias. Em novembro do ano passado ela descobriu um câncer agressivo no ovário, que chegou a atingir o intestino. Passou por duas cirurgias, ficou um tempo com bolsa de colostomia e precisou retirar o útero, ovário e apêndice. Já fez três quimioterapias e tem mais dois procedimentos pela frente, mas diz estar “praticamente curada”.

Maria Rosângela acredita que o uso de fosfoetanolamina contribuiu para a melhora do quadro. A professora mostra, animada, a comparação entre os exames de CA-125, principal indicador de presença de câncer no ovário. Em meados do tratamento, o índice da proteína CA-125 no sangue era de 2.218 U/ml. Em estado normal, o valor de referência pode ser no máximo 35 U/ml. As análises feitas mais recentemente mostram uma concentração de 23 U/ml. “Fui uma surpresa muito grande. Mas como eu ainda preciso fazer outras quimioterapias, gostaria de ter acesso ao medicamento porque para amenizar os efeitos do tratamento”, explica.

A professora conta que teve acesso às cápsulas na mesma época em que recebeu o diagnóstico de metástase (disseminação do câncer para outros órgãos). “Foi uma doação de uma família que recebeu os frascos após o paciente ter falecido. Para mim, foi um milagre de Deus”, diz.

Por conta da experiência, a professora de Gurupi (TO) que veio fazer o tratamento em Anápolis, a 55 quilômetros de Goiânia, está entre as pessoas que divulgam vídeos nas redes sociais defendendo a liberação do uso medicamentoso da substância. “Eles falam que não tem nada comprovado, mas para quem está na situação qualquer esperança é valiosa.”

Duas frentes

A liberação do uso medicamentoso da fosfoetanolamina sintética segue em duas frentes, mas em direções opostas. Enquanto na frente política tem conseguido consecutivas vitórias, como a aprovação de projeto de lei na Câmara e no Senado, os organismos oficiais de saúde fazem críticas cada vez mais contundentes.

Na semana passada, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) divulgou o resultado dos cinco primeiros testes, realizados no ambiente in vitro. A substância foi considerada ineficaz no tratamento contra o câncer. As análises também mostraram que o conteúdo das cápsulas não é puro, contendo outros cinco componentes.

A Anvisa e Organização Mundial de Saúde (OMS) também se posicionaram contrárias ao projeto de lei. A Anvisa informou que vai recomendar à Dilma que vete o projeto aprovado no Congresso. Até o momento a presidente não se pronunciou a respeito do tema. O Conselho Federal de Medicina (CFM) disse que o médico que receitar a pílula anticâncer poderá ser processado e punido.

Outros testes

No entanto, o especialista em imunologia Durvanei Augusto Maria, do Instituto Butantan, pesquisador da fosfoetanolamina sintética divulgou uma nota de esclarecimento, criticando os estudos conduzidos pelo ministério. “As concentrações que foram testadas neste relatório correspondem as concentrações em média 100 vezes menores que a faixa e concentração de atuação da fosfoetanolamina em linhagens tumorais. Sendo assim, o relatório apresentado não apresenta significado científico”, rebate.

Durvanei Maria testou a fosfo em animais e células humanas. Apesar de defender o potencial da substância como medicamento, já disse em entrevistas não recomendar o uso antes da finalização da fase testes sejam feitos. Em diversas ocasiões também disse não achar que pílula, caso vire remédio, deva substituir procedimentos convencionais como a quimioterapia.

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