Crônica, Destaque, Editorias

O telefonema

Era de manhã e eu ainda estava na cama quando o telefone tocou.

Na tela aparecia número desconhecido.

Como fazia muito frio, continuei deitado por mais um tempo, mesmo depois de ter tomado café da manhã.

Curiosamente, o celular insistia em iniciar uma conversa entre mim e o desconhecido.

Quando chegou a hora do almoço, aquele aparelho teimoso já contabilizava vinte ligações, todas do mesmo número, aliás, não tinha número algum, eram chamadas desconhecidas.

Aquilo foi me intrigando, mas, mesmo assim resistia a não atender, afinal, todos os meus amigos sabiam que eu jamais cedia a telefonemas privados.

Às 15h, fui à Confeitaria Chantilly para uma tarde de conversa com Katerina, conforme havíamos combinado na véspera.

Ao comentar sobre as ligações com ela a resposta foi certeira:

– Se o número é desconhecido, trata-se de alguém que não te conhece, Bill. Obviamente!

Ainda durante o nosso café, meu Iphone tocou mais uma vez, insistentemente.

Katerina sempre foi uma namorada muito equilibrada e não demonstrava indícios de ciúmes por motivo banal, mas essas chamadas a deixaram desconcertada.

Mais tarde, em casa, quando preparava o nosso jantar ela disparou:

– Quando essa coisa irritante tocar novamente, eu o atenderei. E não tente me fazer mudar de ideia.

– Ok, Katerina. O celular é todo seu!

Então ela deu um sorrisinho ligeiramente nervoso e prosseguiu com o jantar.

Parecia até que a pessoa que havia ligado por quase cinquenta vezes sabia da intenção de Katerina, pois o telefone que antes era todo insistência, agora emudecia estranhamente.

Perto da madrugada, depois de uma tórrida dose de amor, o Iphone disparou a tocar e Katerina, que estava do outro lado da cama quase me derrubou para pegá-lo, com medo que eu me antecipasse.

Quando ela atendeu a chamada que dizia numa mensagem automática:

– Senhor, seu bilhete foi premiado e por isso o senhor acaba de ganhar 5 milhões de reais! Por favor, dirija-se à agência mais próxima do Banco NOTAL para a transferência do valor.

Katerina boquiaberta sussurrava: Bill, meu bem, foi a melhor ligação da sua vida, das nossas vidas!

Esta postagem foi publicada em 28 de Março de 2016, 11:15 e está arquivada em Crônica, Destaque, Editorias.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.