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O que penso sobre o impeachment

Ricardo Gondim

RICARDO GONDIM
Ricardo Gondim é escritor e teólogo, presidente da Convenção Betesda Brasil. E-mail: ricardogondin2@gmail.com

Sou filho de preso político. Amarguei o peso do coturno da ditadura sobre minha família. Sofremos desde o 1 de abril de 1964, passando pelo tenebroso 1968, com o AI-5, até a anistia. No dia em que veio a anistia sentimos, finalmente, que não precisávamos esconder livros e temer que um jipe da aeronáutica levasse papai de novo para um presídio militar. Minha irmã caçula morreu com dois dias de vida devido à gravidez conturbada da mamãe, enquanto o marido dela estava sumido, incomunicável. Ainda hoje, décadas depois, vejo resquícios danosos daqueles anos em meus irmãos.

Meu pai foi um legalista. Defendeu a Constituição na madrugada do golpe. Como militar, ele havia jurado a bandeira e o estado de direito. Sumariamente expulso das Forças Armadas, viu-se obrigado a voltar à Universidade. Depois que licenciou-se em história, ainda sentiu os tentáculos do arbítrio. O regime o proibiu de ensinar em colégios da rede pública.

Sou contrário ao impeachment que se desenha no parlamento. Embora tenha enormes discordâncias com o governo Dilma e não tolere o jogo bruto do fisiologismo, não vejo que as razões apresentadas no arrazoado, que pede o afastamento da presidente, sejam suficientes. Dilma não se comunica bem, pelo que me dizem é turrona e não parece competente na gestão da burocracia do palácio. Nada disso – no presidencialismo – serve de razão para que ela seja defenestrada de suas funções.

Não posso me calar ao ver políticos com o rabo preso posarem de defensores de uma pátria livre da corrupção. Se a questão é ética, nenhum desses que pede o fim da Dilma pode apontar o argueiro no olho dela enquanto eles próprios carregam traves.

Sim, eu sei que o atual governo negociou a alma com os demônios da política. Sim, eu sei que Dilma preferiu conversar com evangélicos fundamentalistas para ganhar a simpatia de grupos conservadores. Sim, eu sei que a represa de Belo Monte é um crime de lesa-humanidade. Sim, eu sei que os indígenas foram esquecidos nos últimos anos. Sim, eu sei que nunca os bancos lucraram tanto. Sim, eu sei que as hienas do PMDB achacaram o governo em troca de cargos. Sim, eu sei de tudo. Mas, porém, todavia, contudo, não obstante, os que pretendem conquistar o poder são piores, enormemente, piores.

Se os Bolsonaros, os Alves, os Caiados, os servis do PP e os aliados do Cunha tomarem o poder, o Brasil afunda de vez. Tenho sido crítico do atual governo, mas serei ostensivo opositor dos que pretendem sucedê-lo. Tenho me mostrado cético quanto uma guinada à esquerda, em favor do pobre, mas, por acreditar que uma direita odiosa pode arriscar o futuro do Brasil, me colocarei em rota de colisão na subida de quem, além de ter forjado uma situação grave, não treme nenhum músculo no rosto na hora de mentir.

As opções, estou consciente, são poucas. Estamos encalacrados em um impasse político. Reconheço tão somente que os argumentos que me deram, até agora, para remover a presidente não me satisfazem.  O que as Excelências tramam na Câmara é golpe; do grupo com biografia mais suja que chiqueiro. Se a presidente foi eleita no voto, esperemos, critiquemos, ajudemos, façamos oposição. Em poucos meses, também no voto, outro, quem sabe da oposição, ocupará o seu lugar.

Por enquanto, sejamos gentis e sensatos. Qualquer outro caminho pode ser infinitamente pior.

Soli Deo Gloria

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